Aviso: texto com conteúdo possivelmente chocante/violento, não aconselhável a pessoa facilmente impressionáveis.
Nos filmes fazem tudo isto parecer mais simples… matar alguém.
Sempre tive curiosidade em saber como seria matar alguém - Aquela curiosidade teórica, de quem se questiona como será ganhar um campeonato de cricket sem nunca ter jogado, ou como será fazer pesca subaquática sem nunca ter sequer visto o mar – era uma espécie de desejo adormecido que nunca tive oportunidade de realizar, sabem, com os filhos e tudo…
E agora aqui estou eu… na banheira de minha casa a lavar o sangue de uma pessoa desconhecida enquanto penso onde vou despejar o corpo.
Tudo começou hoje de manhã.
Não acordara com a ideia fixa de matar alguém, pelo amor de Deus, não sou nenhuma psicopata. Sou uma pessoa bastante calma, os meus vizinhos diriam até que sou o protótipo de vizinha perfeita. Não me meto na vida dos outros e eles não se metem na minha. Em 64 anos de existência nunca me correu mal esta estratégia.
Levantei-me para preparar o pequeno-almoço.
Fiz café bem forte, e servi duas chávenas. Enquanto beberricava a minha chávena praticamente transbordante sorri amargamente. Voltei a por a mesa a contar com Henry.
Henry é o meu marido… ou por outra… foi o meu marido. Saiu há 15 anos para ir comprar coentros para o ensopado de Domingo e nunca mais voltou. Trocou-me por uma rameira com metade da minha idade e fugiu para França. Soube quatro dias mais tarde quando fui reconhecer o corpo. Morreram os dois num despiste de trânsito, antes de chegarem ao aeroporto. Lembro-me de ter rido quando soube o que aconteceu. Mas a vida tem destas coisas… e não sou uma vítima por isso.
Despejei o café da chávena extra no lavatório e terminei rapidamente a torrada.
Era Sábado de manhã e a vizinhança estava ainda silenciosa, gosto mais deste silêncio. Viver num bairro familiar dá cabo dos nervos de qualquer um, os pais de hoje em dia não têm pulso nas criancinhas barulhentas. Arrastei-me para o sofá ainda de camisa de dormir e pantufas felpudas, liguei a TV, e no exacto momento em que a apresentadora começava a contar a história dramática de mais algum pobre coitado, a campainha tocou solícita.
-Já vai, Já vai – gritei – São dez para as sete, sinceramente, não têm melhor hora para vir a casa de uma pessoa?
Espreitei pelo olho de boi e deparei-me com uma jovem de fato castanho, distorcida pela lente concava. Abri cautelosamente a porta sem destrancar os 3 trincos de corrente perguntando asperamente de que se tratava.
-Bom dia minha senhora, se me der três minutinhos do seu dia tenho aqui uma proposta de negócio irrecusável.
-Não estou interessada – respondi rapidamente, fechando a porta na cara da jovem.
Senti-me pessimamente. Não queria ter sido mal educada com a rapariga… acabei por me arrepender e a chamar quando ela já descia a rua em direcção à próxima casa da vizinhança, com um passo rápido e seguro.
-Desculpe menina, quer entrar e tomar um café?
Acabei por me desfazer em desculpas e convidei-a a entrar. Com um sorriso condescendente disse-me que não tinha mal. Até nem era a pior situação que lhe tinha acontecido ultimamente. Soube momentos mais tarde que se chamava Susan, que se tinha mudado há pouco tempo de Londres… qualquer coisa relacionada com problemas com os pais, que trabalhava para uma companhia de TV por cabo com óptimos preços… e deixei de prestar atenção a meio da conversa.
“Mais café?” perguntei solícita. Susan anuiu com a cabeça… e enquanto me dirigia a ela com a cafeteira quase cheia e ainda a ferver, as peças do puzzle começaram a encaixar-se.
Sem família ou qualquer tipo de laços… ninguém daria pela sua falta…
E um ódio agonizante apossou-se de mim.
Não foi um ódio direccionado à rapariga sentada À minha frente que brincava com o cabelo arruivado enquanto olhava para uma fotografia velha que tinha numa moldura da cozinha… era um ódio inexplicável a toda aquela independência que nunca tive, sempre dependi do traste do Henry… e acabei sozinha nos subúrbios rodeada de casalinhos apaixonados e famílias felizes.
Dou graças a Deus de os vizinhos não terem ouvido os gritos de agonia de Susan, quando lhe despejei a cafeteira cheia directamente na cabeça.
Pensava que iria ficar imediatamente inconsciente, mas não… gritou e arregalou os olhos e acabou por me tentar atingir com a caneca que lhe dei.
Por dois segundos duvidei da minha sanidade… mas a sanidade é uma coisa muito relativa, então encolhi os ombros e bati-lhe com o martelo de moer a carne. Nos filmes quando um osso se parte, faz sempre um barulho estranho, como se estivéssemos a partir esparguete cru dentro de um saco de carne picada… mas não é nada assim. Parti-lhe um braço quando me tentava sufocar. Não pude deixar de reparar que tinha as unhas bem arranjadas… e afiadas.
Não me sentia realizada com todo este trabalho. Sempre idealizara tudo como num filme. Um tiro e a pessoa cai no chão inanimada em câmara lenta.
Ninguém me falou nos gritos e na patética tentativa de sobrevivência.
Enquanto Susan se agarrava ao braço em posição fetal no chão, peguei numa caçarola e atingi-a violentamente na cabeça. no exacto momento em que levantei a mão, aqueles olhos cinzentos claros, olharam para mim suplicantes, e balbuciou “porquê?”.
Não lhe cheguei a responder.
Desmaiou enquanto um pequeno fio de sangue lhe escorria da testa, provavelmente fracturada com o impacto.
Antes que Susan reanimasse, abri a gaveta dos talheres e espetei-lhe no coração uma faca de trinchar o peru.
Pensei que seria fácil. Como espetar uma agulha numa almofada… mas não. Um barulho de carne a ser rasgada ecoou durante minutos na minha cabeça enquanto fazia força para que a faca penetrasse completamente, e assim vi a vida de Susan fugir-lhe.
Olhei para a minha camisa de dormir. Arruinada. Pelos vistos o homicídio é uma boa desculpa para se ir às compras.
Sentei-me na cadeira agora manchada e o cheiro começou a preencher a sala.
Sangue.
Aquele cheiro férreo que fica quando fazemos um corte multiplicava-se por 100, por 1000, e empapava a minha carpete, as minhas pantufas… tive a sensação de que até o meu cabelo cheirava a sangue. Não sei como é que nos filmes as pessoas não ficam enojadas com este cheiro.
Olhei em volta e apercebi-me de que a minha cozinha parecia um cenário de filme de terror barato, acho que foi o que mais me custou em todo o processo. Pensar que tinha que limpar tudo depois.
“Fica para mais tarde” pensei.
Entrei na banheira e tomei um banho de imersão. Acho que fiquei lá por pelo menos 3 horas. A água tomava uma tonalidade rosada enquanto eu esperava que o cheiro desaparecesse do meu corpo.
…
E a minha história poderia acabar como num filme de acção, em que algum vizinho mais atento ouvia um grito às sete da manhã, ou um namorado desconhecido que sabia que Susan estava a trabalhar nesta zona e que juntava os pontos… mas a vida não é um Filme.
Susan acabou morta enterrada no meu jardim das traseiras, por baixo das minhas roseiras.
____________________________________________________________________________
Ai que lindo, até rimou no fim.
Bem, eu optei por abordar o tema da violÊncia por um outro prisma, mais forte e mais cru... não me apeteceu fazer um poema, e não tenham medo, que eu não tenho vontade de matar ninguém. dispenso.
O texto foi feito também com a ideia também de vos deixar algumas perguntas:
Como repararam a personagem principal tem muito uma ideia incutida de violência retirada de filmes...
Acham que os Media (mais concretamente Filmes, Séries e Livros) se viram muito para a violência?
A violência está a ser banalizada?
Alguma coisa a dizer sobre o assunto?
Gostaram do texto?
[A ouvir:
Moratorium - Alanis Morisette]
[Humor:
Zen (estranhamente)

]