A F. foi uma amiga de infância.
Não foi de longe a mais chegada, mas
crescemos juntos, passámos pelos anos de conformismo infantil e
pelos de rebeldia adolescente, e éramos peças presentes no cenário
um do outro. Vi as suas “fases” passarem a velocidade supersónica
e ela aturou as minhas (como o fiz com todos os amigos)
Estávamos juntos grande parte do
tempo, e os pais dela já se tinham habituado à nossa presença pela
casa. Fizemos todos projectos – como manda a norma - na altura da
universidade, de irmos para a mesma faculdade, e ficarmos na mesma
cidade e todo um chorrilho de divagações muito típicas de pessoas
que não sabem mesmo o que querem da vida.
Há 4 anos a F. foi viver para Lisboa,
e eu – bem como os restantes amigos mais chegados – fiquei por cá
no Algarve. Não tivemos nenhuma divergência grave de opiniões, não
deixámos de nos dar bem, e nem houve uma despedida atribulada.
Levou a mala cheia de roupa e a cabeça
cheia de sonhos, e no processo, resolveu afastar-se.
Cansou-se de nós, o seu grupo de
amigos de sempre.
E se querem que vos diga, é uma coisa
muito desagradável.
Quero que percebam que não estou a
querer de modo algum pintar a F. como a vilã nesta história, até
porque deixei de a ver como tal há muito tempo atrás.
Acho que não há vilões nesta
história, nem coisa que se pareça.
Sofremos de síndroma do membro
ausente, estávamos demasiado habituados a que a F. fosse a “nossa
F.”, e vê-la fugir-nos foi no mínimo estranho, e levou imenso
tempo a ser processado.
De uma forma muito gradual, a F. foi
fugindo das nossas vidas, deixando de ser uma figura presente e
passando a ser uma memória muito evocada.
Durante muito tempo tentámos dar o
desconto. Tentámos incluí-la sempre que possível...
Mas a F. não queria. Esquivava-se,
dava desculpas, ou “perdia o telemóvel” ou “não tinha os
nossos contactos” ou “não tinha internet”, e ficava
invariávelmente incontactável até ter necessidade de se sentir
novamente integrada e se vir juntar a nós pelo meio de milhões de
desculpas e promessas de “um cafezinho” ou dois, que nunca
passavam disso mesmo, acho que nos tomou por garantidos.
E de um momento para o outro estivemos
mais de um ano sem ouvir dizer nada da F. eclipsou-se totalmente.
Ora, na teoria é muito bonito dizer
que a distância não abala uma amizade, mas isso não funciona assim
na prática.
Por demasiada boa vontade que haja por
parte de toda a gente, a dada altura dá-se o click.
E aqui reside o mito comum de que o
click se vai dar de forma audível. Que um dia qualquer acordamos e
ouvimos um BOOM na cabeça e que isso quer dizer que A, B ou C
perderam o lugar,
Acho que no fundo esperávamos todos
que esse dia não chegasse, por muito magoados que estivessemos com a
F. e com a maneira como nos tratou.
Mas ele chegou e não deixou mensagem.
Passado mais de um ano sem sequer por a
vista em cima da F. ela reapareceu, sem qualquer tipo de
justificações, e inseriu-se no nosso grupo como se nada fosse.
E se querem que vos diga, foi o momento
mais constrangedor da minha vida até hoje.
Algures pelo caminho, a F. deixou de
ser nossa amiga.
Toda aquela empatia que se foi
desenvolvendo ao longo dos anos, gastou-se com os golpes de
indiferença e a cumplicidade era menos que nula. Não tive vontade
de lhe contar nada da minha vida, nem consegui desenvolver uma
conversa com ela que passasse do estado do tempo - e não fui o único.
Ela passou de amiga a desconhecida.
E não era má vontade, rancor ou
mágoa, como eu esperava vir a sentir.
Resumidamente... não era nada. É como quando vamos ao pote do café a contar que esteja cheio, e ele está vazio, e tiramos uma colher cheia de ar.
E enquanto estávamos todos num bar a
conversar e a rir e a F. ficava a um canto sem se conseguir inserir,
por ter simplesmente perdido o lugar – voluntariamente – não
consegui deixar de sentir pena dela.
Vivemos à base de engrenagens, que giram em diversas velocidades muito próprias.
Vejo cada engrenagem como uma pessoa que conheço, e a velocidade com que roda determina em que fase nos encontramos. Nem todas são essenciais para o funcionamento da máquina, e eventualmente algumas deixam de funcionar.
Não chegam a ser substituídas, são apenas removidas.
A F. é uma dessas engrenagens, que decidiu deixar de funcionar e agora deixou de ter lugar na minha máquina.
E vocês?
Já tiveram alguma F. nas vossas vidas?
Vá, hoje não tenho grandes perguntas. toca a ler comentar subscrever etc. etc.